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DIA DOS AVÓS _ GREYCE ÁVILA
Coração esparramado em abraços.
Greyce Avila
Idoso, melhor idade, terceira idade. Quantas expressões para designar aqueles que nos antecederam, com seus erros, seus acertos, suas histórias. Mesmo acometidos por doenças degenerativas, olhar vazio de cenários, cadeado na boca, sabemos que existem, em cada ruga, em cada articulação enrijecida, nos cabelos encanecidos, lições que deveríamos aprender. E apreendê-las num relicário de afeto.
Em muitos países o velho é monumento vivo e admirado pelas gerações que vieram depois. A sabedoria tecida com os fios da experiência merece carinho e respeito. Em grupos tribais são os conselheiros, os curadores, as vozes que transmitem os valores de outrora. Que abençoam os que chegam, que reverenciam os que partem.
Num questionamento voraz que me consome a cada ancião que vejo, a pergunta que quer gritar: Por que são tão tristes os olhos, porque são tão raros os sorrisos? É claro que encontramos velhinhos crianças que nos passam a alegria de dentro. Velhinhas que estudam, que dançam em passos mais lentos ou em mãos meio trêmulas no balé do tricô. Velhinhos parceiros, dançando ou viajando, com histórias para contar, com risadas para rir até chorar. E nós? Carecemos de ouvidos de ouvir.
Perdoem-me idosos se os chamo de velho, de velha. Quem chama meu idoso ao se referir a uma pessoa avançada na idade? Meu velho, minha velha, meus queridos, companheiros de caminhada que abriram trilhas, facilitando meus rumos. Não há ofensa. A palavra torna-se feia quando pronunciada com desdém, com desprezo, por bocas doentes, geralmente de jovens que pisam em suas raízes, que olvidam ser este o caminho natural para eles, a não ser que surpresas os arranquem antes daqui, o que ninguém quer.
Não falo do velho assistido, amado, querido, é claro que tem.
Eu falo daquele que precisa escolher entre comprar o remédio da pressão ou o do colesterol; que precisa optar entre o colírio para a catarata, de lágrimas por certo, ou a insulina para manter a vida, mesmo que sem o açúcar da doce magia; que economiza não tomando os remédios quando se sente melhor; que faz de um cabo de vassoura seu apoio, na falta de um terceiro braço que o ampare; que não paga ônibus, mas que, muitas vezes viaja em pé, sujeito às freadas acomoda passageiros e aos batedores de carteira, enquanto pessoas mais jovens, sentadas, fingem dormir; que tem desconto para o cinema e o teatro, mas não dispõe de condições para ir. Já é protagonista do filme, da encenação bem real, preto e branco, figurinos remendados, descorado na máscara do drama que vive. Que passa uma vida inteira aguardando a aposentadoria que, quando chega e se chega, só apressa a sua morte nas filas indignas, nos índices covardes de reajuste do governo, no distanciamento de uma família que não o merece, que o esquece. Por isso se curva, com o mundo nas costas. Vive de lembranças, quando as tem, que por piores que sejam, são infinitamente melhores que a vivência de agora. Isolados, passam a viver de saudades. Tem mais amigos do lado de lá do que aqui. Desistentes da luta, desertores da vida.
Urge resgatá-los. Com dignidade, com respeito, gratidando carinho. Acolhê-los no coração esparramado em abraços. Ser seu terceiro braço. Aprender com eles, ouvi-los sem reclamar quando repetem a história que já sabemos de cor. Não poderão pular amarelinha, mas poderemos juntos brincar num céu. E nos jogo da velha e do velho, só restarão vencedores.
Meus velhos amados, sua benção!
Greyce - TEXTO ENVIADO PARA O PLANETA FLORAL EM 26 DE JULHO DE 2010 -
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